outubro 23, 2009

Quero o meu dinheiro de volta

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Confesso. Ia cheio de expectativas. E isso, já se sabe, nunca é bom. Mas isso não é desculpa, até porque, pelo que percebi, não era o único. Digo-vos: já fui a muitos concertos. Alguns muito maus, alguns em péssimas condições, alguns que foram autênticos desastres (o Palma embriagado, para variar!). Mas nenhum me desiludiu tanto como este(s) três cantos.
Sempre embirrei com o Fausto, admito. É um songa-monga, mas um songa-monga com talento. Trabalha muito bem a língua portuguesa, mas a sua métrica é horrível: tudo soa às músicas que os jovens católicos tocam nos acampamentos de escuteiros. Pelo Sérgio Godinho tenho uma grande admiração, apesar de achar que, à força de querer manter-se jovem e cool para as novas gerações, está a envelhecer muito mal. Mas enfim, a quem escreveu a Balada da Rita perdoa-se tudo. O Zé Mário é o meu herói, e não é preciso dizer mais nada. Por tudo isto, estava à espera de um concerto à altura, em que o resultado fosse maior do que a soma das partes.
Assim que entrei e distribuíram a lista de músicos estranhei. Vinte músicos em palco?!? Três baterias, quatro guitarras, oito pessoas nos coros, dois pianos, um sintetizador?!? Mas o que é esta merda, não vai ser um concerto intimista, um encontro de velhos amigos (enfim juntos)? Quem é que vai tocar afinal, o Fernando Tordo? Na minha ingenuidade, pensava que os três, acompanhados à guitarra, dariam conta do recado. Engoli os meus receios e sentei-me, meio desconfiado.
Começou e eu tremi. Um som péssimo, uma muralha de som, um desastre de direcção artística, um emaranhado de equívocos. Parecia mesmo o Fernando Tordo no Festival da Canção de 1979, mas sem a sua capacidade vocal. Foi por aí que comecei a sentir-me verdadeiramente incomodado. O som era um asco, ao nível da Ovibeja (quem é que se lembra de escolher aquela sala?! Enchessem o grande auditório do CCB, duas semanas seguidas se fosse preciso. Não é andar a cantar contra os burgueses e depois tocar numa sala sem condições acústicas só porque é mais lucrativo). Mas isso até se desculpava se não fosse o resto. Quem fez a direcção artística conseguiu a proeza de fazer algumas das melhores músicas portuguesas de sempre soar ridículas. Fosga-se, quem era aquele guitarrista eléctrico que mais parecia o Mark Knopfler? Só à chapada. E aquele sintetizador, tipo piano mágico? Bhlec. Claro que com aquela muralha de som, tudo mal se distinguia e as vozes deles, coitados, pareciam particularmente frágeis e sem chama nenhuma. O Fausto, então, parecia estar a fazer um grande frete.
Quem esperava um concerto, já nem digo intimista, mas pelo menos caloroso, enganou-se. Foi tudo meio frio e distante, apesar do empenho do Zé Mário. Não trocaram um abraço, mal falaram com o público. Quem esperava velhas estórias, qualquer contextualização (culpado!), uma introduçãozinha que fosse, ficou à espera. Caraças, os tipos conhecem-se há quarenta anos, dois deles desde os tempos do exílio em Paris, e não parecia. Empatia nula.
A sala, enorme, cheia de luz, também não ajudou nada. É difícil concentrarmo-nos verdadeiramente no palco, quando ao nosso lado estamos a ver mil pessoas a mexerem-se, abanar o leque, outras a levantarem-se para ir buscar uma cerveja. Por alguma razão os espectáculos, seja música, cinema ou teatro, são às escuras, não?
O problema esteve também no público. Sem surpresa, estava lá a malta do «25 de Abril sempre», de boina basca. Já conquistada ainda antes do concerto começar, a malta batia palmas e pedia «músicas do Zeca». Estavam ali para ver os cantores de Abril, os cantautores de intervenção. Os três do palco fizeram questão de ignorar isso, mas a massa humana bateu palmas à mesma. Tirando o Zé Mário (sempre ele), os outros dois esforçaram-se por afastar-se completamente dessa imagem. Fugiram a muitas músicas emblemáticas do PREC, e quando tocaram algumas, deram-lhe uma roupagem pop-chula tão ao gosto do Fausto, mudaram-lhe letras e cantaram-nas como quem já não acredita naquilo. O Charlatão soou a uma palhaçada, a Quatro quadras soltas não esteve à altura, só a confederação se safou. Lamento dizer, mas o espírito de José Afonso andou bem longe.
Mas a malta aplaudia na mesma. Estava a bater palmas a si mesmo, às suas memórias, no fundo, não à música. O problema dos públicos já conquistados é que o espectáculo transforma-se facilmente num episódio de idolatria e os músicos não se esforçam por conquistar a plateia. É tudo demasiado fácil. Basta estar em palco. Foi o que aconteceu.
Eu queria tanto ter gostado.
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6 comentários:

inês disse...

Se tivesses gostado, não haveria um post assim. Não leves a mal, mas ainda bem que não gostaste.

agora disse...

também é verdade, o que escreveste, mas não é tudo.

Rita disse...

ah, agora percebo o comentário lá na chafarica... a sério? foi mesmo assim? bolas... olha, sempre fico mais reconfortada por não ter ido :)

PS: acho que te vi no talho no outro dia, mas nunca tenho bem a certeza da tua cara :P

vera marmelo disse...

o desastre foi mesmo geral. na noite do concerto encontrei 3 amigos com histórias parecidas à tua.

três semanas na aula magna é que era pah! ;)

sonaminhacabeca disse...

O verdadeiro concerto foi a 23, o de 22 foi ensaio.

Agora a sério, se não batermos palmas às nossas memórias, o que é que nos resta?...

ié-ié disse...

Estou como a Inês. Ainda bem que não gostaste! Há muito tempo que não lia uma crítica tão saborosa.

Na mouche!

LT